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fevereiro 06, 2009

rogativo

Oxalá
Chovam palavras
Sobre minha cabeça
E que sobre meu rosto
Deslize o texto
Demoradamente

Oxalá
Possam chover ainda versos
Sobre meus doloridos dedos
E que por minhas costas
Escorra a caligrafia já antiquada
Do século passado

Oxalá
Tal chuva
pelo meu corpo,
depois que o enxágue;
Tal chuva
em minha mente,
depois que a enxugue -
Limpe
Inunde
Revele

Que poesia é assim -
uma coisa de pele




setembro 30, 2008

diferenças

Se até o mundo
Não é mais o mesmo,
Como que com o verso
Não seria diferente?

Se até o verso
não é mais o mesmo,
Como que com o amor
Não seria diferente?

Se até o amor
Não é mais o mesmo,
Como que com o sexo
Não seria diferente?

Se até o sexo
Não é mais o mesmo,
Como que com a vida
Não seria diferente?

Se até a vida
Não é mais a mesma,
Como que com a morte
Não seria diferente?

Se até a vida
Não é mais a mesma,
Como que com a morte
Não seria diferente?

Se até a morte
Não é mais a mesma,
Como que com a noite
Não seria diferente?

Se até a noite
Não é mais a mesma,
Como que com a manhã
Não seria diferente?

Se até a manhã
Não é mais a mesma,
Como que com o sol
Não seria diferente?

Se até o sol
Não é o mais o mesmo?
Como que com a pele
Não seria diferente?

E se até a pele
Já é bem mais outra,
Como que com você
Não seria diferente,
Se até o mundo
Não é mais o mesmo?

30/09/08

autorretrato

Fujo da turba
Vista turva
tanta a lágrima
tanta lástima

E me encontro exatamente no lugar de sempre:

Olhos fundos de pranto
Olhar perdido num canto

Um olho no poema
e um outro olho no prato.

março 29, 2006

eu sou

Eu sou
a chuva que inunda teu março
e põe tua tevê a boiar pelo chão de tua sala.

Eu sou
a ruazinha apertada
pela qual caminhas fogo morro acima,
enquanto tua vida desmorona água morro abaixo.

Eu sou
aquele pêlo que encrava em teu rosto,
que incomoda, que lateja,
mas que te delicias ao cutucá-lo.

Eu sou
o cheiro daquele incenso
que te eleva e que te leva daqui para um lugar qualquer.

Eu sou
- não o poema que querias que te escrevesse -
mas todo o silêncio que me toma ao pensar em fazê-lo

Eu sou
esse silêncio e tudo que o povoa.
Sou bicho,
Sou mato,
Urbano
Mulato
Que dessa janela - praia ou favela -
te pensa.

Eu,
no findar das contas,
sou aquele poema que sei que ainda me hás de escrever.

dezembro 12, 2005

paisagem matutina

beijo
boca
dedo
céu
da boca
nuvem
doce
nuvem
vento
passa
rinho
passa
ninho
olho

janela
vidro
quebra
diço
tua
voz
ressoa
e voa
na minha
lembrança
olho
boca
mão
e pé

março 07, 2005

teus olhos dois

largos longínquos lagos
teus olhos dois
teus olhos pois
vagos vazios vasos
teus olhos pois
teus olhos dois
cumes alados lumes
teus olhos dois
teus olhos pois
vezes vinte revezes
teus olhos ois
dois olhos voz
Vós olhos dois
meus olhos sois

janeiro 31, 2005

simnãosim

simsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsim
simsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsim
simsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsavidaéassim

simsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsim
nemsempresetemsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsi
simsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsim
simsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsim

simsimsimsimsimsimsimnemsempresetemnãosimsimsimsimsimsimsi
simsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsim
simsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsim
simsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsim
simsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsimsim
a vida se vida é sim uma interminável sucessão de talvezes