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janeiro 26, 2009

a gente

A gente pega chuva
Sem usar as mãos
E sem dispor de mãos
A chuva pega gente

A gente leva a vida
A correr das horas
E no correr das horas
A vida leva a gente

A gente toma vergonha
Fazendo as coisas certas
E fazendo certas coisas
A vergonha toma a gente

A gente tenta comprar o mundo
Com a moeda da incerteza
E com a incerteza da moeda
O mundo tenta comprar a gente

A gente viaja pelo universo
olhando uma simples estrela
E de uma simples estrela olhando
O universo viaja na gente

A gente é muito na imensidão da mente
Meu pensamento é minha tecnologia
Meu bocado de magia, minha vã félosofia

A mente é muito na imensidão da gente

outubro 03, 2008

vão

vão
assim
os dias
diante
de mim

vão sim
ah! sim
longe
da tua mão

e estão
assim
legados
a ter fim

enfim
vão-se
ano
após
ano
vão

Sim
vão
No
vão
das horas da ilusão

Que são
meu são
vestígio
de razão
Pois não
Estão
perdidos num desvão

no chão
estéril
dessa tua mão

Que não
mais tem
meu pobre
coração

Que
não
Mais
pode
bater

não
sim
não
(2004)

condicional

se um dia me lembrar
da melodia que teu dia-a-dia tem

se um dia me lembrar
daquela dama que a tua cama tem

se um dia encontrar
a chave torta que a tua porta tem

se um dia eu disser
que é mister eu encontrar alguém pra mim

vão saber que encontrei
alguma droga que prorroga o meu fim.
(2004)

junho 23, 2008

três letras

O mundo é um poço sem fundo
As horas ensinam sem dó
É guerra pra cima e pra baixo
É gente que vem e que vai

Há dias em que alguém te ama
Dias em que há na mesa o pão
A bolsa subindo ou descendo
Há o dia em que alguém te trai

Tudo facilmente se explica
Basta que se queira entender
Mas há uma coisa ainda
Que do meu pensamento não sai:

- Como pode caber tanto ai
nas três letras da palavra pai?...

janeiro 27, 2008

antítese do óbvio




















doce como é doce o sal de uma lágrima
frio como é frio o calor de um abraço
é assim teu beijo, e é assim teu colo
é assim que são os meus versos pra ti

calmo como é calmo um vulto ao meio-dia
muito como é muito o ar fora da Terra
é assim teu rosto, e é assim teu corpo
é assim que são os meus versos pra ti

louco como é louco o ilógico do nexo
tudo como é tudo o nada do oceano
é assim teu mundo, e é assim teu ego
é assim que são os versos pra ti

doce, calmo, muito, frio, louco, tudo
beijo, colo, rosto, corpo, mundo, ego
pobre como ouro, fraco como a rocha
justo como a morte, certo como a lei
é assim meu peito, e é assim meu grito
é assim que nascem meus versos de ti

mudo como é mudo gritar o teu nome
cego como é cego pintar os teus olhos
é assim meu canto, e é assim meu pranto
e assim nasceram meus versos pra ti


mudo como mudo ao invocar teu nome
cego como cego-me ao olhar teus olhos
estes teus azuis, teus dois lagos azuis
fui assim fazendo estes versos pra ti

pobre, ouro, fraco, rocha, morte, lei
mudo, nome, cego, olhos, canto, pranto
é assim que morro, sem pedir socorro
vou assim morrendo em meus versos pra ti

setembro 24, 2007

a flor apesar da flor

Há fumaça na janela
Ela me diz que sem ela eu não posso mais viver
Ela me diz que sem ela eu não posso mais

No chão, uma linda flor
Está a desabrochar...

- A flor, apesar do sol
- A flor, apesar da chuva que já não mais cai...

Há fumaça na janela
Ela me diz que sem ela eu não posso mais viver
Ela me diz que sem ela eu não posso mais

A flor, apesar da dor,
A flor, apesar das marcas que já não mais saem...

abril 29, 2007

filhos da república

eu vou chamar
vou perguntar
filhos da república,
venham responder

como é que é?
que isto vai ser?
filhos da república,
ousem responder

nesse terreiro
vai baixar
um orixá dourado
para nos educar

quem vai ganhar?
quem vai perder:
filhos da república,
venham me dizer!

maio 16, 2006

ladainha

Valei-me, Nossa Senhora da Tristeza,
nessa hora de Felicidade!
Valei-me, Nossa Senhora da Agonia,
nessa hora de Felicidade!
Valei-me, Nossa Senhora das Caras Feias,
nessa hora de Felicidade!
Valei-me, Nossa Senhora dos Mal-me-queres,
nessa hora de Felicidade!
Valei-me, Nossa Senhora dos Desprazeres,
nessa hora de Felicidade!
Valei-me, Nossa Senhora dos Pés Esquerdos,
nessa hora de Felicidade!
Valei-me, Nossa Senhora dos Azarados,
nessa hora de Felicidade!
Valei-me, Nossa Senhora dos Oprimidos,
nessa hora de Felicidade!
Livrai-me, Nossa Senhora da Força Bruta,
nessa hora de Felicidade,
da Solidão desses fracos que se isolam,
da Solidão desses fracos que se acham
sem nunca sem encontrar.

Saravá, Dona Alegria,
Saravá, sua banda! 

 

dezembro 09, 2005

eu

Eu que sou o condenável
Eu que sou o desprezível
Eu que quando passo pela rua todos dizem
- Olha,esse é o tal poeta...

Eu que ando nu vestido
Eu que busco-me um sentido
Eu que quando tiro a minha roupa todos dizem
- Uau, esse é o tal poeta...

Eu que só mereço crítica
Eu que não faço política
Lá na minha boa vizinhança se perguntam
- Quem é esse tal poeta?...

Eu que já nasci pau torto
Tronco podre desse horto
Eu que fui muita mulher
Eu que quando faço poesia todos dizem
- ...

agosto 18, 2003

cara



a minha cara deu na cara
deu a cara à tapa
a minha cara há uma cara
pôs a carapuça
e a carapuça serviu

a minha cara,minha cara,
caiu de cara no saara
a minha cara, olhe cara,
despiu a carapaça
a carapaça servil

a mim a cara é carcará
é ocara é coisa rara
a minha cara é minha cara
quando um cara passa
um cara passa a ser vil